Pedro e Karolina – anjos que voam no asfalto
17 de agosto de 2017
Mara Poliana da Silva (7 artigos)
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Pedro e Karolina – anjos que voam no asfalto

Start. Todo mundo, a qualquer momento da vida, vai encontrar o seu. O start da mãe Karolina Cordeiro tem cabelo de anjo, sorriso nada discreto, braços compridos, pernas magricelas e janelas da alma que falam mais do que minhas palavras conseguem descrevê-lo. Sobre um triciclo adaptado para corrida, Pedro Cordeiro, com apenas onze anos, já correu tanto quanto alguém que vive sobre os pés, e cada suspiro seu desafia a medicina, quando esta lhe deu somente dois anos de vida. Alicardi-Goutieres (SAG), desencadeada aos oito meses, a síndrome fez o pequeno perder os movimentos, deixando-o impossibilitado de andar e falar com a boca. Na largada, de longe os olhos percebem que onde os braços de Karolina terminam é onde a vida do Pedro começa. E, diga-se de passagem, é uma vida de aventuras, adrenalina e muita endorfina. Já correu debaixo de chuva e até no atoleiro. “Ele vive 1% do medo, mas eu quis proporcionar 1% de vida”, diz a mãe. Ele corre sem tocar o chão. Fala sem nem sequer abrir os lábios. Ele voa alto, mas voa porque tem asas que o carregam para onde seu coraçãozinho mandar. A leveza dos passos e o sorriso no rosto da mãe escondem o esforço dos 40 quilos que suas mãos empurram, pois o peso se tornou suave, quando descobriu que a corrida é a cura do filho.

“Quando eu corro com ele, naquele momento ele é eterno, a sensação que eu tenho é que nunca vou perdê-lo, que o Pedro sempre vai estar comigo”, conta Karolina. Não há tempo previsto para a linha de chegada. Afinal, quem é o tempo para aquele que o dribla todas as manhãs ao dar o primeiro suspiro do dia?! O tempo é o do coração de cada um, e enquanto correm, o sol no corpinho de Pedro e o sopro do vento sobre seus cabelos têm muito mais valor do que um lugar no pódio. “Nos congressos, os médicos sempre perguntam por que eu acho que o Pedro está bem, e eu falo: é porque ele corre, ele fica muito feliz, estimula os hormônios”, lembra a mãe. Karolina conta que a inspiração para correr com o filho chegou às suas mãos em 2013, quando sua mãe, no Dia das Mães, lhe presenteou com um livro de devoção de Dick Hoyt, que Karolina já o admirava pelo filme Meu pai, meu herói. Dick é um pai americano que possui uma história emocionante com seu filho deficiente. Quando os médicos disseram que Rick viveria como um vegetal, o pai decidiu ignorar e proporcionar qualidade de vida ao garoto. Por meio da corrida, empurrando seu filho numa cadeira de rodas em maratonas, conseguiram conquistar muitas medalhas e mudar a perspectiva de vida de Rick. Motivada pela semelhança com sua história, na primeira oportunidade na corrida do Circuito Caixa em Uberlândia, Karolina decidiu que escolheria uma nova maneira de encarar a vida. “Eu dei à luz ele, e no dia em que desencadeou a síndrome Pedro deu à luz a mim. Ele me deu meu maior presente que foi uma nova Karolina. A primeira corrida foi muito significativa, foi a minha comemoração, uma sensação de agradecimento de tê-lo, foi um marco, porque eu sabia que ia mudar toda a nossa história”, lembra. Enquanto Dick e Rick Hoyt formavam a equipe Team Hoyt, mãe e filho se tornavam Angel Hair.

“O nome foi escolhido, porque nos Estados Unidos, quando a enfermeira foi tirar o sangue do Pedro para descobrir a síndrome, assim que viu seu cabelo loirinho, disse: ‘angel hair’. E, no momento em que ela estava coletando o sangue, ia mudar nossa história. Esse nome carrega muita força na corrida, porque tem asas”, conta Karolina. E para alcançar a grande prova dos sonhos em realizar um triathlon, a equipe vai mesmo precisar de muita garra e força. Mais emocionante do que a primeira corrida com o Pedro, foi quando as filhas Ana Julia (12) e Giovana (7) também começaram a correr. Dentro do carrinho, sentada na frente com as mãozinhas pequenas segurando a perna do irmão, a caçula Gigi impedia que ele se machucasse na roda. “O triciclo é pesado, junto com o cansaço da corrida e o peso deles eu pensava que não ia conseguir, mas ela me disse: ‘você é guerreira, mamãe’, aí descia e corria uns 200m. No final da corrida ela ainda olhou para mim e disse: ‘mamãe, hoje eu sei por que você corre, não tem como explicar’. E eu pensei no tamanho da minha responsabilidade e no exemplo que dou para os meus filhos”, conta a mãe. A corrida, além de proporcionar saúde física ao garoto, também estreitou e fortificou os laços da família. Mas, nas ruas e na escola, mãe e filhas não estão livres do preconceito pela falta de informação. Karolina conta que as meninas passam por situações difíceis ao terem que ouvir palavras ofensivas a respeito de Pedro.

A mãe lembra que no início ouviu duras críticas de que seus planos nunca dariam certo. Mas a decisão de não absorvê-las foi o passaporte para uma vida muito mais feliz, pois só os dois sabem o significado de cada passo. “As pessoas perguntam: por que você vai correr? E eu respondo: é uma forma de agradecimento, é um presente que a corrida nos deu por ele respirar. Eu só agradeço a respiração dele, não importa o tempo. É uma imensa gratidão, sou muito feliz.” Mas para agradecer a vida do Pedro é preciso muito mais do que palavras. É na estrada para Romaria que todo ano mãe e filho correm 90km revezados até os pés da santa para agradecer. Na subida da escadaria o momento é de dor, mas também de muita reflexão e gratidão. Os fogos são para a festa, mas celebram a vitalidade do garoto que ama viver intensamente cada segundo que lhe é permitido. A equipe Angel Hair chama a atenção por onde passa, pois correr até ali é mais que um ato de fé. Além da corrida, mãe e filho vivem uma experiência única, participando de um projeto de inclusão social por meio da dança. Eles já se apresentaram para mais de 2 mil pessoas em escolas, faculdades e teatros. No colo da mãe, com movimentos que fazem dele, literalmente, um anjo, Pedro experimenta sensações que aqui não podem ser descritas. O projeto, além da dança inclusiva, leva livros e cartilhas em escolas públicas, particulares, empresas e instituições, com o objetivo de despertar a conscientização do potencial humano da pessoa com algum tipo de deficiência e estimular o esporte das famílias especiais. A equipe agora tem um grande sonho: construir um instituto de capacitação de pessoas deficientes para o mercado de trabalho, sendo uma estrutura não só física, mas de humanização. Investir no esporte para pessoas com deficiência e capacitar profissionais para estarem no ensino público. O sonho veio exatamente do coração de Pedro que é apaixonado pela escola Domingos Pimentel, onde estuda. Ele é o único cadeirante da sala, e com seu jeitinho de fazer amigos com o olhar, é disputado por quem deseja sentar-se ao seu lado. Nas Olimpíadas no ano passado, foi escolhido para carregar a tocha na encenação que a escola realizou ao redor do quarteirão. Com muito carisma e alegria, não passou despercebido por olho algum, que a partir daquele momento entenderia o verdadeiro significado do esporte. Aos três anos de idade, Pedro foi o primeiro deficiente grave a frequentar uma escola pública regular em Uberlândia. A mãe conta que o atendimento especializado é de qualidade e que a inclusão foi de forma gradual e encantadora. “O que mais me chamou atenção nas crianças é que nunca perguntavam o que ele tinha, mas como ele se chamava, e isso me emocionava demais! E até o Pedro sozinho, sem falar, conseguiu se fazer entender pelo afeto, mostrando que a verdadeira inclusão não é a imposta, mas a conquistada. Hoje, os colegas levam o Pedro para todo lado. Ele se tornou o queridão da escola, não pela deficiência, mas pelo sorriso.” Engana-se quem pensou que uma cadeira de rodas impediria Pedro de viver intensamente. Além de ir para a escola todos os dias, Pedro faz fisioterapia, equoterapia e ainda corre nos finais de semana com a mãe. Nadar e assistir televisão com as irmãs estão no topo da lista das atividades preferidas do garoto. Ele é o filho do meio, o bendito entre as mulheres. Karolina lembra que sempre soube que teria um menino, e que nasceu exatamente para tê-lo. Quando adoeceu repentinamente, foi como uma bomba que abalou as estruturas de uma família despreparada para lidar com a gravidade da doença, pois em todo o mundo há apenas pouco mais de 50 pessoas que possuem a síndrome. Pedro passou por mais de mil exames, até que uma neurologista de Uberlândia, recém-chegada do Canadá, decidiu estudar o caso. Com pouca biografia, Karolina conseguiu, por meio da internet, contato na Inglaterra com uma geneticista que estudava a síndrome e, após a troca de e-mails, chegou a ir para uma conferência em Washington para não só descobrir mais sobre a doença, mas principalmente levar informações. Dia após dia, mãe e filho enfrentavam juntos uma tristeza na alma pela incerteza do amanhã. Ela, por pensar que seu filho não poderia brincar, correr, pegar um objeto ou simplesmente a mão de alguém. Ele, por ver nos olhos da mãe a frustração que tanto doía, afinal, a doença não tirara sua percepção. “Quando se falou em síndrome rara, chorei pelo medo de perdê-lo. “Pedro é o herói da família, companheiro das irmãs, e para mim é meu pequeno príncipe, com seus cabelos de anjo.”

Um medo que me fazia arrepiar a espinha. Eu olhava pra ele e pensava ‘fica aqui, eu te amo, fica aqui, vamos vencer juntos, você é forte”’, lembra Karolina. Viveram até a última gota de sofrimento, encararam a dor frente a frente e em momento algum fingiram estar alheios a ela. Mas exatamente aos dois anos de Pedro, cansada de chorar e lamentar por um futuro improvável, Karolina decidiu não mais olhar para a ampulheta da vida do filho. “Olhando nos olhos do Pedro, tivemos uma conversa e fizemos um trato: ele ia querer viver bem, acordar e dormir sorrindo.” A partir daí, Pedro  não mais enxergaria sua deficiência nos olhos da mãe, mas encontraria amor, cuidado, orgulho e alegria em poder carregá-lo. “Naquele dia eu disse pra ele: ‘A mamãe te ama assim, eu não sou triste, eu não quero ficar triste’. E ele sorriu, depois de muito tempo que não sorria mais. Eu tive o privilégio de ter o Pedro e de não olhar só a caixa do presente”, conta Karolina. A mãe não esconde o orgulho do filho. Cada detalhe é uma vitória que deve ser comemorada. Cada quilômetro é uma forma de agradecimento. E, por mais de uma vez, lágrimas brotaram em seus olhos enquanto contava sua história. Ela é uma supermãe, embora não goste de ser intitulada assim. Uma espécie de mãe-anjo, mas prefere que as asas sejam apenas do Pedro. “Algumas pessoas pensam que a mãe que tem um filho cadeirante é enviada por Deus. Não é nada, nós, mulheres, somos todas iguais. Todo mundo é capaz de fazer tudo. Todo mundo na vida tem um start. O meu foi o Pedro. Ele me deu o start pra eu enxergar coisas que antes nunca tinha visto, mas ninguém precisa ter um filho deficiente para encontrar seu propósito.”

Um dia fora tímida e medrosa, mas rapidamente se viu leoa, quando a vida do filho é o que estava em jogo. Brigou em fórum para conseguir cirurgia, deu ordens às enfermeiras que mal sabiam das dificuldades que enfrentava, e com unhas e dentes lutou para sobreviver à sua nova vida, porque de repente: start. “E aí nasceu outro Pedro para mim, eu dei à luz ele e, no dia que ele desencadeou a síndrome, ele deu à luz a mim. Ele me deu o maior presente que foi uma nova Karolina.” Em todo o momento da entrevista Karol se dirige ao filho e faz de tudo para arrancar seu melhor sorriso. Ela o ama mais que a si mesma. Decifra cada olhar singelo do garoto e sabe exatamente o que cada um tem a dizer. Está estampada em seu rosto a alegria de tê-lo por perto. Ela o empodera. Faz declarações. Me faz chorar. “O Pedro é muito precioso. Eu falo pra ele ‘você é muito precioso, por estar aqui neste segundo’. Na corrida nós somos um só, uma só respiração. Ele me sente pertinho dele, e ‘é tão bom não é, filho?!’. Eu vi pelos olhos dele que ele pensou ‘mãe, eu vou ser o que seus olhos falam’. Então, a gente quer fazer tudo mágico, tudo ficar lindo, tudo ficar uma história de conto de fadas.” Quando ele sorri ao ouvir a mãe falando pertinho, fazendo carinho e por vezes até chorando, compreendo a inutilidade do som das palavras quando elas só podem ser ditas e ouvidas pelo coração. “Filho, se você pudesse escolher, você queria andar ou falar? Se for falar, olha pra cá; se for andar, olha pra lá.” Ansiosa pela resposta, só agora entendo porque ele girou levemente a cabeça para lá. Ele quer andar, porque Pedro já sabe falar. Seu sorriso revela o quanto é bom estar neste mundo. Juntos, mãe e filho são apenas um. Corações que batem no mesmo ritmo pela mesma missão: mostrar ao mundo que é normal ser diferente, porque de repente: start.

 

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Mara Poliana da Silva

Mara Poliana da Silva

Estudante de Jornalismo no curso de Comunicação Social na Universidade de Uberaba (UNIUBE).