Seleção Brasileira – um sonho de infância
14 de agosto de 2017
Alexandre Vieira (1 artigo)
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Seleção Brasileira – um sonho de infância

Do Praia Clube para a seleção brasileira com direito a pódio paralímpico. Trajetória de superação na vida de Ruan Souza. Meu nome é Ruan Souza, tenho 25 anos, sou natural de Taubaté, interior de São Paulo, e sou atleta paralímpico de natação. Comecei a nadar desde cedo, com minha madrinha me ensinando as primeiras braçadas por questões médicas. Na infância, tive cisto ósseo no fêmur direito, que deixava meu osso da perna como uma casca de ovo e não poderia ter impacto até o término do meu crescimento, ocasionando duas cirurgias para fortalecê-lo. Aos 11 anos de idade acabei sofrendo um acidente quando estava voltando para casa de bicicleta. Já tinha anoitecido, fui atravessar uma avenida, fui atropelado por um automóvel indo parar dentro do carro, no banco do carona com as pernas em cima do motorista. Tive fratura exposta na perna esquerda, da qual lesionei o músculo e perdi 80% de força. Uma perna acabou ficando menor que a outra, pois tive perda de células de crescimento. Foi uma época muito difícil para mim, sempre fui muito independente, e ter que depender de todos para fazer tudo era algo que me deixou muito frustrado. Após quatro meses já estava andando novamente e voltei aos treinamentos. Fui pegando experiência nesses anos até que fui apresentado para o mundo paralímpico, e em toda modalidade assim como na natação, é necessário passar por uma classificação funcional para verificar em qual classe me enquadraria para competir; e em minha primeira classificação acabei ficando inelegível para o paradesporto. Corri atrás de vários exames e consegui provar que mesmo mínima, minha deficiência enquadraria nos critérios de elegibilidade, e após outra classificação nacional comecei a competir na natação paralímpica. Logo comecei a chamar a atenção pelos bons resultados, o que resultou em uma convocação para a seleção brasileira de jovens para um mundial na Holanda, em 2013, mas aquele ano me rendeu muitas surpresas ruins também. No começo do ano tive que lidar com o falecimento de minha avó, a quem eu tinha uma ligação muito forte. Mas superei e não deixei que isso me atrapalhasse, apesar da saudade dela ser eterna, pois era uma grande incentivadora, mas sabia que a felicidade dela era sempre me ver nadando e continuei me dedicando cada vez mais.

No mundial, ganhei quase tudo que nadei, fui ouro nos 400m livre, 100m livre, 200m medley, 50m livre e conquistei uma prata nos 100m costas. Com certeza, eu estava no melhor momento de minha carreira, mas a vida é uma caixinha de surpresas, e no dia em que viajei para a Holanda meu irmão sofreu um acidente e ficou em coma todos os dias em que fiquei lá. E quando voltei fizeram um exame nele e confirmaram morte encefálica. Eu fiquei sem chão, mas tinha certeza que teria mais uma pessoa olhando por mim lá de cima agora. Alguns meses depois fui chamado pelo meu técnico, Alexandre Vieira, para ir para Uberlândia treinar e competir pelo Praia Clube. Conversei com a minha família por estarmos num momento delicado e me apoiaram a seguir meu sonho. Logo na minha primeira competição pelo clube, que aconteceu em meados de abril, eu precisava fazer uma classificação para representar o Brasil em competições internacionais, e mais uma vez saí como inelegível. Aquele resultado me tirava de qualquer competição nacional e internacional, e demorou dois anos para que eu pudesse fazer novamente outra classificação. Foram dois anos vendo meus companheiros de equipe competindo, e mesmo com algumas dificuldades não desisti do meu sonho, e graças ao meu técnico e ao Praia Clube que acreditaram em mim, continuei treinando esse período. A questão financeira foi algo bem difícil nesse momento, mas eu queria muito ir para uma paralímpiada e continuar fazendo o que amo; e acredito que meu sonho e minha vontade de continuar me mantiveram no esporte sem desistir.

No final de 2015, viajei para a Polônia para ser reclassificado, e para minha surpresa fui classificado internacionalmente apenas no estilo peito, um estilo que nunca nadei e que sempre foi o meu pior, mas era isso ou desistir de tudo o que tinha lutado até aquele momento. Então, agarrei com unhas e dentes essa oportunidade e tive apenas seis meses para treinar e conseguir o índice para os jogos da Rio 2016, e foi isso que botei na cabeça. Eu treinava o peito e senti dores como nunca senti antes; meu corpo sofreu para se adaptar ao novo estilo. Na primeira tentativa do índice não consegui, e dois meses depois teria outra oportunidade para refazer a marca. Lesionei meu braço, mas não seria isso que iria me atrapalhar e continuei treinando com muita fisioterapia e muita vontade. Na minha última oportunidade consegui nadar abaixo do índice mínimo, e eu estava classificado para a minha primeira paralimpíada. Que sentimento e que dia! Passou um filme na minha cabeça e eu não sabia se ria ou chorava, mas agradeci primeiro a Deus, e a quem de lá de cima estava olhando por mim e por todos que fizeram parte daquela conquista e começava ali o meu sonho. Na preparação para a Rio 2016 foi muito intenso, pois tínhamos pouco tempo, e foi onde vivi minhas melhores experiências com o esporte.

A vila era linda e muito grande, muito fácil perder o foco com tudo o que tinha lá. Mas eu sabia o que queria. Nadei minha prova individual no primeiro dia da competição e nadei para o melhor tempo da vida, e já estava feliz e satisfeito com meu resultado. Nove dias depois nadei o revezamento e me preparei muito para isso. Nos últimos dias surgiram boatos sobre a formação do revezamento, e isso me irritava, pois alguns atletas não queriam nadar pela rotina extenuante da competição e por ser no último dia, e mesmo assim eu estava ali para fazer o que treinei e dar meu melhor como sempre faço. Nadei a prova mais emocionante da minha vida, o revezamento 4x100m medley 34 pontos, onde nadei com os melhores atletas brasileiros Daniel Dias, André Brasil e Phelipe Rodrigues, um revezamento que nunca conquistou nada, nenhuma medalha, nenhum recorde. Era hora de mudar isso. Conseguimos buscar o terceiro lugar e vir a tão sonhada medalha. Aquela arena parecia que ia desmontar de tanta comemoração. E foi a realização de um sonho que sonhei desde criança. Mas quero continuar sonhando e cada vez sonhando maior em busca de outras conquistas. Hoje me sinto realizado com tudo o que vivi, e todas essas coisas me transformaram em quem sou, e sou muito grato a tudo e a todos que fizeram e ainda fazem parte da minha história.

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Alexandre Vieira

Alexandre Vieira

Técnico chefe no Praia Clube Uberlândia e técnico nacional na empresa Comitê Paralímpico Brasileiro de Natação (CPB).