Ultramaratona de MTB – Canastra Warriors
14 de agosto de 2017
Triângulo Esporte (25 artigos)
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Ultramaratona de MTB – Canastra Warriors

Cachoeiras, trilhas e subidas intermináveis em uma batalha travada no interior do Parque Nacional da Serra da Canastra no Triângulo. O Parque Nacional da Serra da Canastra, em Minas Gerais, recebeu pela primeira vez na sua história uma competição de Mountain Bike no dia 3 de julho, e apresentou aos atletas 120km de distância, em meio aos seus 200 mil hectares de montanhas, cachoeiras, nascentes e muitos desafios. Foram atletas de mais de 8 estados e 26 cidades do país. A Warriors Outdoor Sports (WOS) já organizou corridas de longa distância a pé no Parque Nacional da Serra da Canastra, e agora estreou com a primeira edição para os amantes do MTB e da natureza, contemplando paisagens incríveis e as riquezas naturais de um dos mais importantes parques brasileiros, criado em 1972. O briefing técnico aconteceu no confortável e aconchegante estilo da pequena cidade de São João Batista da Canastra, de onde foi dada a largada no dia seguinte.

 

Os atletas e guerreiros respiraram fundo e foram sentir a adrenalina correndo nas veias. Esta foi a primeira edição da prova, que pode entrar para o calendário nacional.

A prova contou com duas opções de percurso: 120km e 60km. Os organizadores anunciaram os pontos de corte, onde nós deveríamos cruzar a linha dos 100km com no máximo 7 horas de prova. Entendemos, naquele momento, que a prova seria mais longa do que o esperado. Nos minutos anteriores à largada, os atletas apresentaram preparativos diferentes dos convencionais: a grande maioria utilizava mochilas de hidratação, bolsos cheios de comida, e não somente os tradicionais géis. Para uma corrida como esta ficou bem claro que iríamos precisar de comida de verdade: batata, azeitonas, frutas e o que mais pudesse saciar a fome, em vez de somente reposição energética. O equipamento também precisou ser duplamente verificado, pois qualquer problema mecânico poderia acontecer em uma prova tão longa. A maioria dos atletas carregava duas câmaras de ar, óleo extra e ferramentas das mais diversas. As feras da elite feminina se descontraíam nos minutos antes da largada. Primeiros quilômetros da prova, tempo aberto, formação de pelotões e muito trabalho pela frente. Assim que foi dada a largada, deixamos o vilarejo e partimos em destino ainda desconhecido. O caminho mesclava estradões com formação para os pelotões, trilhas técnicas com descidas e subidas íngremes que poucos atletas conseguiram passar pedalando. Os atletas pareciam muito comedidos e comportados, pois em maioria sabiam que estavam apenas no início de uma corrida com muitos desafios pela frente.

Durante a travessia do rio, ainda nos primeiros 40km, todos optaram por carregar as bikes como forma de preservar o equipamento que ainda seria muito exigido, mesmo que isso custasse alguns (preciosos) segundos a mais. Poupar o equipamento é essencial nos primeiros quilômetros de prova. Com 30km tivemos o primeiro ponto de hidratação, e depois, aos 50km, passamos por São Roque de Minas e a organização forneceu um ponto de apoio mais completo: frutas, isotônico, refrigerante, apoio mecânico, diversos fiscais ajudando os atletas com o que precisassem. No briefing, fomos avisados o porquê de tudo aquilo: a partir dali iria iniciar a maior subida da prova, informação que nos motivou a guardar energia até ali, se possível. Subida a partir do km 50: ponto-chave da prova. A subida realmente era tudo aquilo que falaram. Os atletas que não dosaram o ritmo antes dali pagaram o preço. Muita gente empurrando a bike, muitos parados com câimbra, e o pior: durou muito tempo a tal subida. Foram aproximadamente 15km, subindo sem parar. O céu ainda estava limpo e fazia bastante calor, mas todo esforço foi recompensado quando chegamos ao ponto mais alto da Serra da Canastra. A vista se perde no horizonte de montanhas, e as riquezas naturais cruzam aos montes com o nosso percurso sofrido e desafiador. Passamos em frente ao histórico Curral de Pedras, cachoeiras, pontos turísticos de Minas Gerais e à nascente do Rio São Francisco. Na passagem sobre rio, na estrada principal no topo da serra, cachoeiras e seus cursos d’água desviaram o foco dos atletas por alguns segundos. O meio da tarde trouxe um visual diferente em meio à turbulência da segunda metade da prova. Ao longo da estrada principal andamos até o último ponto de apoio, no km 100. O sol já estava mais baixo aproximando o fim da tarde, as nuvens começavam a compor o visual e o calor já não era mais um problema. A partir dali, faltavam somente mais 20km, mas a organização nos orientou a não subestimá-los, pois seriam os piores.

 

Prova dura, com subidas sem fim, cascalho, pedras, single track, descidas íngremes, curvas fechadas… Um sol para cada atleta…

Todos já estavam muito exaustos e sabiam que ainda havia uma subida pela frente. Chegamos à última subida com aproximadamente 110km, e nos assustamos com o que vimos. A subida desse trecho desafiou o psicológico e a capacidade técnica dos atletas. A subida do km 110 foi um estrago geral. Ela vinha logo depois de uma descida técnica em meio a um pasto com muito mato alto, e quando começou a subir estávamos bloqueados por pedras e cascalhos que definiram o real sentido de aquilo ser de fato uma prova de mountain bike. Passar pedalando era para poucos. Estirar-se ao chão com câimbras foi a realidade de muitos. As dificuldades se embaraçavam em meio ao resto do dia que tínhamos passado em cima da bicicleta, sem saber se aquilo era possível ou não. O visual era fora do normal, como se pudéssemos ver todas as montanhas que já tínhamos conquistado ao longo do desafio inteiro, bem às nossas costas. Por fim, sair da interminável subida do km 110 levou os atletas à emocionante linha de chegada, onde foram consagrados os gladiadores do mountain bike, e a Canastra, seu novo campo de batalha. Parabéns aos campeões Hugo Prado Neto (Cannondale/OCE), Isabela Lacerda (Groove/Shimano/ASW), a todos que se desafiaram nos 120km, aos organizadores e a todos os moradores deste lugar incrível que nos receberam e abraçaram nosso esporte! Até 2018!

Dentre os atletas que participaram do desafio estava o corredor Vitor Rage, ultramaratonista mineiro, acostumado com distâncias acima de 250km (a pé). Vitor relata: “Vivenciei uma experiência incrível dentro do esporte! Estou afastado das corridas há cinco semanas, e há três venho fazendo minha reabilitação com a bike. Então vi a oportunidade de fazer, pela primeira vez, uma prova exclusivamente de MTB. O desafio era percorrer 123km, 3.320m de desnível positivo e passar no km 98 antes do tempo de ‘corte’ de sete horas. Atravessei a deslumbrante e árdua Serra da Canastra fazendo muita força para compensar minha falta de velocidade e técnica de descida, por praticar esporadicamente esse esporte. Toda a luta valeu muito a pena ao cruzar a linha de chegada após 8h20m. Vou guardar recordações fantásticas e grandes amizades feitas pelo caminho! Parabenizo os organizadores da WOS Ultramaratona de MTB pela excelente e duríssima prova realizada. Ano que vem estarei de volta!”

fotos: Alemão Silva

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