Danilo Guimarães – um sonho possível
16 de dezembro de 2017
Mara Poliana da Silva (7 artigos)
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Danilo Guimarães – um sonho possível

Desde muito cedo as rodas guiavam seus caminhos. Um estilo livre. Subidas em rampas, manobras e corridas na areia eram as atividades diárias daquele adolescente de 16 anos da 215 Sul, em Brasília. Competições vieram, e junto, os prêmios e medalhas que alimentaram ainda mais a adrenalina do garoto. Com uma bicicleta sem marcha, percorria 15 quilômetros só para assistir aos treinos de seu ídolo Marcelo Mexicano, campeão regional de motocross na época. Este é Danilo Goulart, 60 anos, um apaixonado pelas rodas, que realizou no filho, Danilo Guimarães, 26 anos, o sonho de ser piloto. Nascido em Araxá, Danilo (pai) morou com os avós em Brasília até o início da década de 70. Quando retornou ao berço natal, devido à falta do esporte na cidade, foi obrigado a aposentar a bike. Hoje é casado, pai de três filhos e integrante do Motoclube 100 Destino. Em seu coração sempre permaneceu a saudade dos velhos tempos, das corridas, da adrenalina e até das quedas que, no final do dia, sempre o fortaleciam.

O desejo de reviver momentos como aqueles nunca esteve distante de seu pensamento, e a vontade de dar ao filho a mesma experiência vivida começa a nascer no seu coração. “Um dia vi uma moto 80 cilindradas e pensei: quem sabe meu filho Danilo não vai andar nesse negócio um dia?” Enquanto isso Dão, como o menino era carinhosamente chamado pelo pai e pelos amigos, vivia os prazeres da infância e aproveitava o cavalo que ganhou do avô. Por muito tempo treinou o laço, atividade com que se identificou. Mas um dia, aos 11 anos de idade, ao experimentar o primeiro passeio na 80 cilindradas de seu amigo Pedro, surpreendeu o pai: “Eu não quero mais andar a cavalo. Quero uma moto”. E uma alegria imensa tomou o coração de Danilo. Agora era hora de mover mundos e fundos para realizar a vontade do garoto. Foi na capital mineira que Danilo encontrou a oportunidade de comprar a tão sonhada 80 cilindradas para o filho.

Mas um sonho tão grande como esse merecia uma surpresa. E no Natal de 2000, Dão recebia em casa sua primeira moto, e o pai, a maior satisfação que já sentira na vida. “Me lembro até hoje da surpresa que meus pais fizeram. Eles me levaram para dormir na casa da minha avó e prepararam a surpresa em casa. Quando cheguei, no outro dia, a moto já estava na sala com todos os equipamentos. Eles convidaram até meus amigos, e quando entrei em casa, não sabia se ria ou se chorava. Nunca vou esquecer desse momento. Eu sonhava em ter uma moto, mas não imaginava que ganharia naquele Natal. Meu pai armou tudo direitinho e eu não desconfiei de nada”, conta Dão.

Mas e o coração da mãe, como fica nessa história? Ver o filho em um esporte radical nunca foi problema para Isabela Guimarães. Ela não é uma mãe comum. Embora protetora, nunca se opôs às vontades de pai e filho quando o assunto é esporte. Sempre foi a grande companheira nas corridas, e seu apoio foi a peça chave para Dão ascender em sua carreira. No início, o pequeno piloto precisava treinar e ganhar força para as competições, e foi Isabela a grande apoiadora que o acompanhou de perto nos bastidores. Após a aula, ela era quem levava o garoto para treinar na pista de motocross que seu esposo construiu e que, inclusive, já recebeu várias etapas do campeonato mineiro. “Depois que ele fazia a tarefa, à tarde, íamos juntos para a pista. Lá, ele treinava horas, eu tirava fotos e até cronometrava. Nos fins de semana, sempre viajávamos para diferentes lugares para competir”, lembra a mãe. Os dias longe de casa se tornavam cada vez mais comuns. Aos 15 anos, Dão aproveitou as férias e durante dez dias se preparou em Pará de Minas para competir a primeira etapa do Campeonato Mineiro de Motocross em Araxá, onde foi o grande vencedor da categoria 80cc.

Mas nem tudo foram flores. Na terceira etapa do Campeonato, o piloto enfrentou problemas mecânicos durante os treinos e acabou por correr com uma moto improvisada, inferior à sua de competição. Mas, apesar do problema, Dão conseguiu uma excelente colocação, chegando em 2º lugar e mantendo a disputa pelo título. Em seu primeiro ano participando de competição em nível estadual, ele conquistou o Vice-Campeonato Mineiro de Motocross, após as oito etapas realizadas em 2005. Na largada, Isabela pede a proteção de Deus e aguarda ansiosa a volta do filho. O coração de mãe não encontra sossego até que seus olhos vão ao encontro de sua cria. “Nas competições, eu acho que a minha adrenalina é maior do que a dele. Eu fico preocupada e perguntando pra todo mundo se alguém tem notícias. Mas quando ele chega a sensação é incrível. Não é fácil ver o filho em um esporte tão perigoso, mas ele tem todo equipamento de proteção; há riscos como em todos os espertes, então, o que faço é entregar nas mãos de Deus. Fico muito feliz de vê-lo fazendo o que gosta e sendo competente no que faz.”

Quem já teve a oportunidade de apreciar uma competição de motocross concluiu que se trata de um grande espetáculo, de muita emoção. Por causa da natureza física do motocross, os pilotos se esforçam fisicamente para absorver choques com seus joelhos, braços, pescoço e tronco. O assento longo e liso sem degrau é projetado para permitir que os pilotos desloquem seu peso rapidamente para fornecer mais tração na posição escolhida, o que o torna desconfortável fora de seu uso proposital. Muitos pilotos modificam suas máquinas para melhorar o desempenho e para ter o comportamento da moto de acordo com suas próprias preferências ou apenas para a apreciação. As competições são realizadas em espaços abertos. Os objetos usados, além do meio de transporte, são equipamentos que garantem a proteção e a segurança dos competidores, bem como luvas e capacetes. As entidades responsáveis pela promoção e manutenção de grandes eventos envolvendo esse esporte são a FIM (Federação Internacional de Motociclismo) e a CBM (Confederação Brasileira de Motociclismo).

As provas costumam ser realizadas sobre terreno molhado e têm duração de 20 ou 10 minutos, sendo aquela para profissionais e esta para amadores. No início, Dão começou a correr na modalidade Crosscountry, uma mistura de enduro com motocross; porém, nos campeonatos regionais não havia divisão na categoria em que participava. Por várias vezes, teve que competir com pilotos de cilindradas maiores do que a sua. O atleta também já passou por situações difíceis que comprometeram suas participações nos campeonatos. Quedas e fraturas eram constantes durante as provas. Em 2007, sofreu uma lesão no ligamento do joelho esquerdo que o deixou longe das pistas por doze meses. Mas voltou com força total, conquistando a terceira colocação na categoria MX2 e segunda colocação na Força Livre nos campeonatos regionais. Nunca foi fácil e nem barato marcar presença nas competições. Para que o filho pudesse competir, Danilo teve que se reinventar.

O que não podia acontecer era deixar o sonho morrer. “Motocross é um esporte caro; então tive que contar com vários companheiros e patrocinadores. No começo foi ‘paitrocínio’, mas depois descobri que era possível trocar benefícios com academia, nutricionista e até com loja de veículos. Na época, eu plotei a minha van e levava o nome de todos os patrocinadores nas corridas em que o Dão participava. Se a gente não buscasse colaborador, as coisas ficavam complicadas”, lembra o pai. Mas o piloto, desde cedo, chamava a atenção nos campeonatos. O garoto se tornou promessa e alcançou muitos prêmios, medalhas e muito reconhecimento Brasil afora. Os olhos da mãe não escondem a alegria e o orgulho do filho. “É surreal, ele é um espetáculo. Tem um coração que não cabe no peito. É amigo de todo mundo. Ele é um filho e neto amoroso e bravo ao mesmo tempo (risos). Eu sou privilegiada de ser mãe dele. Não tem explicação.”

Dão é um apaixonado pela vida, pela aventura, pelo chão de lama que, enquanto corre, o faz esquecer do mundo lá fora. Mundo este que não faz mais sentido se não tiver a sua companheira de duas rodas. “A corrida se tornou uma paixão para mim, e hoje não consigo ficar sem correr. Se não tem uma moto na garagem ninguém fica feliz. Todo mundo precisa praticar um esporte, pois ajuda no trabalho, na escola e até melhora a convivência com os outros”, conta o piloto. O esporte, além de torná-lo um campeão, o tornou maduro e disciplinado muito cedo. Estudos apontam que a prática de esportes prepara a criança ou adolescente para executar determinadas habilidades por meio da descoberta do prazer de se exercitar. Quando a pessoa faz exercícios, muitos efeitos ocorrem no corpo. Com um maior grau de relaxamento, ela dorme e se alimenta melhor e, consequentemente, amplia sua capacidade de equilíbrio e concentração.

Após o início no esporte, além dos benefícios citados, Isabela conta que encontrou outros pontos positivos na vida do filho. “Ele começou a frequentar as baladas mais tarde. Ele tinha uma cabeça formada com respeito às drogas, tanto lícitas como ilícitas. Então, eu nunca tive problema com ele em relação a isso. Tudo devido ao esporte. Acho que pai e mãe devem colocar seus filhos no esporte desde pequenos, pois assim nunca terão problemas”, afirma Isabela. Longe das pistas por um tempo, no início de 2017, Dão voltou correndo também no enduro FIM, categoria E1, motos de 250cc. “Eu comecei este ano no enduro, porque no motocross é mais difícil o acesso. O equipamento é muito caro. É preciso dedicar muito mais tempo, e as corridas são muito longe, às vezes não tem aqui por perto. Já no enduro tem bastante corrida na região, dá para conciliar. E apesar de no motocross ser apenas 30 minutos de corrida, exige muito mais do que nas quatro horas do enduro”, conta o piloto. Para o pai, a adrenalina no motocross é fantástica, mas assume que é preciso ter muito controle psicológico para enfrentar os contratempos do esporte.

“No motocross, houve época em que eu não tinha força nas pernas para buscá-lo, porque às vezes ele estava muito machucado. Ele já teve muitas fraturas. Saía inteiro para treinar e voltava todo lesionado. A moto já chegou a explodir, foi um sufoco danado. Então, agora no enduro, eu acho mais tranquilo. Ele tem uma garra formidável. Sou suspeito para falar.” Para participar de competições como estas, é preciso que o atleta esteja em boas condições físicas e mentais. Durante o percurso, o piloto encontra diversos obstáculos como: muita lama, subir e descer em morros de cascalho, atravessar córregos, passar por troncos e galhos caídos, entre outros. Para ter resistência e muito fôlego para competir, Dão treina pesado a semana toda para alcançar a condição física desejada. Sua rotina se divide em academia todos os dias, natação e mountain bike pelo menos três vezes na semana, além de uma alimentação saudável, cheia de proteínas, principalmente antes das competições.

E o objetivo para 2018 é começar o ano com o pé direito e muito foco nos treinamentos para competir na Copa do Cerrado, campeonato regional em que foi vice-campeão em 2017. Dão não escolheu a pista, mas a pista o escolheu. Um garoto de 11 anos que encontrou nas trilhas o sonho de superar limites, de superar a si mesmo, de ser melhor para o mundo. Realizou para o pai o desejo de ser campeão, de ser chamado de piloto, reconhecido pelo público. Enquanto a torcida gritava por Danilo Guimarães, ele trilhava caminhos que o levavam para lugares que jamais imaginou. A adrenalina no corpo é o seu combustível. A alegria do pai é a certeza de que tudo vale a pena.

 

 

 

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Mara Poliana da Silva

Mara Poliana da Silva

Estudante de Jornalismo no curso de Comunicação Social na Universidade de Uberaba (UNIUBE).