Desafio superado – ultra trail du mont blanc
16 de dezembro de 2017
Fabrício Verçoza (1 artigo)
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Desafio superado – ultra trail du mont blanc

Vitor Rage brilhou novamente como o brasileiro mais bem colocado nos 170 quilômetros de uma das provas mais difíceis do planeta.

O Ultra Trail du Mont Blanc é a meca da corrida de montanha, uma das provas mais difíceis do mundo. Tanto em grau de dificuldade como para entrar nela. O direito de correr no UTMB vem depois que o atleta soma pontos em provas, aplica esses pontos e espera ser sorteado pela organização para participar da prova. O atleta araxaense Vitor Abrahão Rage, 35 anos, ultramaratonista com experiência em provas de até 235 km, perseguiu por anos esse sonho. Por três vezes consecutivas aplicou seus pontos até quase desistir da prova, mas em sua última tentativa obteve êxito e foi convidado a participar da edição 2017. “Quase não acreditei quando acessei o site e a opção ‘faça sua inscrição’ estava habilitada; eu sempre tive verdadeira fascinação por essa prova, mas a frustração de aplicar meus pontos e não ser sorteado por duas vezes me fez perder um pouco da excitação, o que achei fantástico, porque isso me deu uma maturidade maior para encarar tamanho desafio; digo não só para encarar os desafios naturais, como terreno, altimetria, quilometragem e as condições climáticas horrorosas que presenciei, mas tenho a certeza que se fosse na primeira vez, meu resultado na prova seria desastroso, amadureci muito nesses três anos de espera. Isso me fez cruzar a linha de chegada”, afirma Vitor. Faltando exatos cinco meses para a prova, o atleta precisou enfrentar um novo desafio, uma lesão quase acabou com o sonho de Vitor. Em uma competição que usou como preparação, após o quilômetro 120, ele sentiu uma dor forte na canela, e depois da prova não conseguia mais caminhar. O diagnóstico foi desesperador: uma inflamação fortíssima no tendão.

“Meu mundo tinha acabado ali. Não parava de pensar nisso. Faltavam cinco meses! Como iria correr 170 quilômetros se não conseguia andar 100 metros?”

Nesse momento acertou os pontos com seu treinador decidindo mudar seu estilo de treino para algo bem improvável. Durante dois meses e meio Vitor passou apenas pedalando, para não perder o preparo e recuperar-se da lesão. Nesse período chegou a participar de uma ultramaratona de bike na Serra da Canastra. Cessada a dor da lesão, voltou aos treinos de corrida, mas com uma pegada diferente, não podia fazer treinos muito longos devido ao risco de a lesão voltar. “Acompanhava as pessoas treinando 120 a 160 quilômetros por semana para a prova, enquanto meus treinos não passavam de 100 quilômetros; optamos por focar na qualidade do treino, trabalhando a velocidade, com mais potência de força e esquecendo um pouco das grandes quilometragens. Eu já enfrentei grandes distâncias e tenho uma certa bagagem, sabia do sofrimento que iria passar, né… e assim fizemos!”, relata Vitor.

Chegando a Chamonix, na França, local da largada da prova, fez alguns treinos para aclimatar e também aproveitar um pouco dos visuais incríveis que o lugar oferece até o grande dia. “No momento da largada, procurei ficar bem concentrado, sem muito oba-oba, pois não gosto muito disso e sei que é extremamente prejudicial, muito euforismo (sic). Mas o clima da prova é empolgante demais, encarar aquela multidão… Só estando lá para entender o tamanho da prova e o que ela representa para os franceses, europeus e o resto mundo, todos os continentes estavam ali representados. Recebemos uma energia muito forte daquela multidão gritando freneticamente na largada, e aproveitei isso ao máximo; me gerou uma força maior na prova.”

A previsão já era de tempo muito ruim desde a largada, céu muito nublado e frio; logo no início começou a chover e o percurso ficou muito cheio de lama. Trata-se de uma prova com poucas retas, coisa mínima. Os 2.300 atletas enfrentam oito montanhas, e segundo Vitor, na primeira delas a temperatura já caiu drasticamente, e a partir dali começou o inferno; na segunda montanha a neve começou a cair e o vento cortava a pele do rosto como navalha; a neblina forte dificultava a visão, e o que já era difícil ficava pior a cada momento. Fadiga, hipotermia e privação de sono consumiam as energias dos atletas, que já apresentavam sinais de desgaste, inclusive Vitor.

 

 

“Enfrentávamos montanhas de até 2.800 metros, com ventos de 80 a 100 km/h, neblina demais, uma lama cruel! Aliviava um pouco quando passava nos pontos de controle, que oferecem uma estrutura incrível na prova, todos com muita alimentação, médicos superbem preparados e capazes; eu conversava com Camila, minha namorada, que fez meu apoio; ganhava um pouco de força e continuava. Eu ainda estava com 80 quilômetros de prova, mas já em solo italiano, quando olhei para um vitral no ponto de apoio, e no reflexo pude notar que estava com olheiras pretas horríveis, com o rosto já bastante inchado. Mas não tinha muita noção de quanto, só pensava comigo, ‘tô bem não!’. Camila disse que meu rosto inchava a cada ponto de apoio em que me encontrava, mas não falava nada para não me preocupar. Quando passamos em um ponto de apoio e a organização exigiu que vestíssemos calças, imaginei o que viria pela frente, sabia que tinha 20 km de subida; aí a partir dali começou meu calvário, esfriava muito, creio que uns 15 graus negativos, mas a sensação era muito pior que isso. Eu só queria sair dali, daquele lugar, chegar a um ponto mais baixo, pois sentia sinais de hipotermia. Pensei em desistir, não uma nem duas vezes, o tempo todo, a cada cinco passos pensava nisso. A neve batendo no olho, não enxergava nem um palmo à frente do nariz, e não parava de subir, subindo e subindo. Foi meu pior momento na prova, muita gente me passando, quando cheguei ao cume, era hora de descer. Meu alívio era que, como subi 20 quilômetros, seria também 20 quilômetros de descida”, confessa Vitor.

 

 

Na parte baixa, avistou os maravilhosos campos suíços, e com uma temperatura melhor, o atleta recuperou suas forças, voltando novamente ao ritmo da prova. Restavam mais 52 quilômetros e 3 montanhas bastante altas para o final. “Meu raciocínio já estava bem alterado pela privação de sono. Nesse momento corria ao lado de um britânico e um francês, chegamos a um ponto onde ficamos ‘batendo cabeça’, imaginando que erramos o caminho mesmo vendo as marcações; era uma espécie de delírio coletivo. Depois de ver que estávamos certos, tive uma certa raiva de mim mesmo; isso foi bom, porque de certa forma me acordou. Cheguei ao último ponto de controle e nem quis parar, tomei uma Coca-Cola e saí correndo igual louco, ‘agora vou terminar isso, terminar de cumprir minha missão!’ A névoa foi dissipando e enxerguei Chamonix, foi incrível! Não dá para explicar a sensação de pensar que você vai concluir sua missão, depois de tanta luta, tanta batalha, tanto sofrimento. Arrepio só de lembrar, não tenho palavras para descrever o que foi cruzar a linha de chegada. Primeiro, lembrava da euforia de poder entrar na prova e depois das decepções de talvez não participar. Foi surreal, totalmente surreal. Largaram 2 mil e trezentos atletas do mundo todo, fui 457 geral, sexto sul-americano e o primeiro brasileiro a concluir a prova. Na verdade, ter sido o primeiro brasileiro, para mim, não significa nada, analiso a colocação geral 457 e penso no que eu poderia fazer, o que que eu poderia mudar em relação ao treinamento e estratégia para em uma próxima vez tentar diminuir um pouquinho que seja a diferença absurda para o primeiro colocado que chegou 17 horas na minha frente. Mas estou feliz demais, realizado de verdade!”

 

 

 

 

 

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Fabrício Verçoza

Fabrício Verçoza

Fabrício Verçoza fez da paixão por esportes uma modo de vida e trabalho. Hoje atua como Editor chefe da revista Triângulo Esporte e sócio proprietário do Criá - Centro criativo, uma agência de conteúdo, marketing digital, design e comunicação.