Enquanto estiver no inferno nem pense em parar
16 de dezembro de 2017
Fredy Guerra (3 artigos)
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Enquanto estiver no inferno nem pense em parar

Um breve relato de Fredy Guerra sobre a UltraSkyMarathon 105k 5.000+ de Perdidos, nas serras de Tijucas do Sul (PR).

Semana cheia e muito trabalho. Preparo toda a logística de prova, alimentação, hidratação e equipamentos, para embarcar um dia antes da largada para a prova Skyrunning mais desafiadora e competitiva do país. Minha esposa, Juju, me apoiou na decisão de ir, de última hora, pois não havia planejado nem feito treinos específicos para esta ultra, mas tive a chance de ir e não poderia perder esta oportunidade de aprendizado. Ela resolveu ir comigo, mas não iria competir, apenas me dar apoio. Foram muitas horas de voo e conexões adaptadas e noites mal dormidas. Chegamos exaustos para o briefing técnico e checagem de equipamentos. Lanchamos rapidamente, pois o transfer da organização já estava saindo. Na arena de prova estava frio, achamos uma fogueira e ficamos por ali. Foi dada a largada!

Os primeiros 38km com 1.800m de subidas acumuladas seriam um aquecimento; quem forçou demais nesta parte, ficou de fora na disputa final. No meu caso foi o contrário: demorei demais, fui lento, minhas pernas não respondiam e cheguei ao apoio (AID station) km 38 bem desanimado. Desistir passou pela minha cabeça, mas logo lembrei dos meus alunos, atletas que torcem por mim, da dedicação e apoio de minha esposa. Não podia me deixar abater, tinha que trabalhar minha humildade, aceitação; tinha que ao menos tentar, acreditar, insistir, fazer o meu melhor.

A Juju me ajudou a repor água no meu reservatório da mochila, me olhou nos olhos e disse: “Você precisa ter cabeça. Levanta a cabeça, olha para mim… Entra na prova, porque é agora que ela começa para você”. Este foi o divisor de águas para a minha recuperação. Saí de lá concentrado e passei pelo Hamilton Kravice, que me disse estar sentindo o tornozelo. Na sequência encontrei o Thiago e encaixamos bem o ritmo. Logo encontramos o gigante Daniel Meyer e seguimos muito tempo juntos, até minha lanterna de cabeça acabar a bateria. Minha lanterna reserva era fraca demais, o Daniel me emprestou a lanterna reserva dele, mas também era fraca e me impossibilitou de seguir com eles, porque tive que reduzir o ritmo em um single track muito técnico, descendo a montanha de Perdidos. Passei pelo posto de apoio do km 62 meio atordoado, demorei demais lá e ainda saí sem água, me atrapalhei todo, desidratei e passei mal por umas três horas, aí meu ritmo caiu pra valer. Repetia para mim mesmo: “no inferno, não pare, não pare, mais um passo, vamos em frente”. Resolvi pegar água não potável do chão, coloquei Clor-In e fui me cuidando; melhorei algumas horas depois e voltei para a prova; precisava terminar, estavam agonizantes aquelas onze horas de prova e ainda faltavam quatro horas escalando o morro do Araçatuba.

Descobri que dois atletas dos top 10 que vinham à frente, Maicon Celarius e Geison Inácio, haviam abandonado a prova, e ainda consegui recuperar uma posição na descida do morro do Araçatuba. Não tinha notícias dos demais corredores, só quando cheguei é que soube que fui sétimo geral, apenas 3 minutos do Daniel Meyer e 15 minutos do quarto e quinto lugares geral, Eder Lopes e Carlos Botelho. Os três primeiros, Chico Santos, José Mirailton e Cesar Picinin, abriram quase duas horas do nosso segundo pelotão, uma performance que nos motiva, nos inspira e nos enche de orgulho, alimenta nossa vontade de treinar mais, acertar os erros e tentar melhorar nas próximas.

Acreditem, todos nós podemos! Cheguei com pouco mais de 15 horas de prova e fui recebido pela minha esposa, minha parceira de vida, meu apoio, quem mereceu todos os logros dessa conquista. Me sentia nas nuvens, no meu céu, na minha plenitude, muito grato a Deus. Longe de ser o mais rápido, vou melhorando aos poucos, aprendendo a cada passo, aceitando que tudo que vier será bem-vindo, por merecimento, porque tudo é aprendizado, tudo é para nos tornarmos melhores na vida; por isso eu tenho alegria nas pernas e muito prazer em treinar.

Continuarei buscando! Fiquei muito feliz com o resultado dos meus alunos/atletas e por ter me posicionado nos top 10 geral em meio aos melhores ultramaratonistas skyrunners do país. Parabéns aos organizadores pelo evento impecável, e meu respeito e agradecimento aos staffs e voluntários que fizeram este evento ser épico. Espero ter saúde e determinação para continuar nessa busca, participar dessas viagens internas sinistras, vivenciar, aprender, compartilhar. Obrigado pelo carinho e incentivo de todos; e lembre-se, enquanto estiver no inferno, nem pense em parar!

 

 

 

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Fredy Guerra

Fredy Guerra

Treinador e profissional de Educação Física (CREF-022778). Apaixonado por esportes desde a infância, idealizou com sucesso o que hoje é uma das maiores assessorias esportivas do país.