Ela tem ossos de vidro – Vontade de Aço
24 de abril de 2018
Chineyder Corrêa Tolentino (1 artigo)
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Ela tem ossos de vidro – Vontade de Aço

Quando a vontade de viver é mais forte do que os obstáculos que a cercam, não há nada que impeça a vitória no final.

“O diagnóstico era sempre o mesmo: não havia tratamento e nem medicação. Eu não chegaria aos 9 anos.”

Há registros de que a atividade desportiva praticada por pessoas portadoras de deficiência existe desde a Grécia antiga, mas apenas após a Segunda Guerra Mundial a prática do exercício físico adaptado para os deficientes teve maior avanço no contexto científico, na busca da prevenção e da reabilitação física, social e psíquica.
Sabe-se que, de modo geral, os seres humanos obtêm efeitos positivos da prática do exercício físico orientado. Os deficientes, obviamente, também obterão esses efeitos ao praticarem exercícios. Flor, 32 anos, aluna da Cornelius, nasceu com osteogênese imperfeita, mais conhecida como ossos de vidro, e já sofreu 55 fraturas e 3 cirurgias. Quando chegou na academia, encontrava-se bastante acima do peso, por causa da deficiência e falta de mobilidade que tinha na cadeira de rodas.

Com isso ela nos procurou para realizarmos um trabalho de emagrecimento. Ela é cadeirante e tem diversas limitações, que tentamos suprir com treino de musculação e treinamento funcional. Flor treina três vezes por semana, intercalando sempre um dia de treino e um dia de descanso para que possamos ter segurança no trabalho. Seus ossos são muito sensíveis, e de certa forma corremos certo risco de estimulá-los todos os dias. Trabalhando assim, já conseguimos uma perda de 15 quilos e melhora razoável na mobilidade de nossa aluna.

Faça chuva ou faça sol, eu não deixo de ir na academia. Tenho muito orgulho de dizer que treino com os melhores profissionais.

Pesquisas demonstram que o deficiente que se envolve constantemente em atividades esportivas tem a “sensação” de estar vivendo uma vida mais saudável, percepção de possuir melhor imagem corporal e o reforço de sua autoestima. Enfim, “a vida faz mais sentido”. “Graças à academia e à perda de peso consegui me movimentar melhor e mudou muito minha qualidade de vida. Faça chuva ou faça sol, não deixo de ir à academia”, conta Flor. O grande desafio é quanto à acessibilidade estrutural dos clubes e academias; e metodológica, dos profissionais que irão receber e orientar o deficiente. Esses são os fatores que, na maioria das vezes, limitam o deficiente a se inserir em um programa regular de exercício físico e acabam gerando uma proporção grande de sedentários nesse público. Este sedentarismo, além de todos os efeitos metabólicos negativos, gera inúmeras alterações motoras, obviamente também negativas, que podem piorar o quadro motor do deficiente tornando-o suscetível a diversas enfermidades.

Cabe ressaltar a importância do apoio da família e dos amigos para auxiliar o deficiente a adotar um estilo de vida mais ativo, tanto no incentivo moral quanto na ajuda física. Por exemplo, no transporte e no acompanhamento à prática do exercício. Porém, ainda assim o maior desafio está “fora de casa”. Há a necessidade de maior conscientização por parte das empresas prestadoras de serviços físicos desportivos em oferecer espaços mais acessíveis e equipamentos mais versáteis; e dos profissionais, em se reciclar tendo uma visão mais expansiva do exercício físico e das possibilidades de adaptações, que são infinitas. “Só tenho a agradecer a Cornelius Atlética por todo o carinho e cuidado comigo, e sei que ainda vamos muito longe. Tenho muito orgulho de dizer que treino com os melhores profissionais”, afirma Flor. A prática esportiva para o deficiente, além de proporcionar melhor funcionamento orgânico geral, é um mecanismo facilitador da inclusão, por meio da qual também há benefícios psíquicos, proporcionando melhoria nas relações na vida pessoal e profissional. “Sei que a vida é uma luta diária, mas com Jesus no coração, persistência e força de vontade, serei muito feliz. Basta aprender como a vida funciona para conquistar a própria felicidade. Não tenho medo de errar, pois é com o erro que se aprende. Cada dor, cada luta, cada sofrimento tem sua razão de ser na justiça perfeitíssima de Deus”, finaliza Flor.

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Chineyder Corrêa Tolentino

Chineyder Corrêa Tolentino

Educador Físico, atua como professor na Cornelius Atlética, que trabalha Ginástica Laboral em diversas empresas, dentre elas Bem Brasil, CDA Zema, Banco do Brasil e SICOOB. CREF 019281- G/MG.