O desafio do futebol feminino – Driblar preconceitos
24 de abril de 2018
Debora Duarte (1 artigo)
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O desafio do futebol feminino – Driblar preconceitos

Entre sombras e visibilidade, a luta contra o descaso e o preconceito da modalidade no Brasil, uma perspectiva que precisa mudar.

“Azul é de menino; rosa, de menina. Futebol é para meninos e vôlei, para meninas.” Uma ideia que reproduz antigos preconceitos. E faz com que estereótipos sejam criados na sociedade, estabelecendo rótulos e preconceitos que até poderiam ter alguma razão no passado. Mas que no século XXI não fazem sentido algum, principalmente quando o assunto é esporte. No país do futebol a desigualdade é assustadora. As regras do esporte valem tanto para a modalidade feminina quanto para a masculina: o peso da bola é o mesmo, as dimensões das quadras e campos também. Porém, quando vistos além das quatro linhas, parecem dois esportes completamente diferentes. Enquanto o futebol masculino leva milhares de torcedores aos estádios, movimenta cifras absurdas e revela ídolos, a modalidade feminina busca reconhecimento da população. Afinal, assim como os meninos, existem muitas meninas talentosas que também sonham um dia vestir a camisa amarelinha e defender o país por meio do futebol. Um sonho invisível. Na ponta da chuteira a esperança de, quem sabe um dia, conquistar o maior sonho de sua vida: ser uma jogadora de futebol profissional. O caminho é árduo, os obstáculos parecem intermináveis, mas a esperança permanece viva em seu coração. Joyce Cristine Batista tem 20 anos e é apenas mais uma entre milhares de brasileiras que sonham com uma carreira de sucesso no esporte. Foi nas ruas do Bairro Alvorada, em Araxá, onde tudo começou. Em meio a tantos pés descalços, correndo pelo asfalto atrás da bola, um era diferente. Quem sabe pela habilidade ou talvez pelo simples fato de ser o pé de uma menina. Menina essa que não se importava em ser a única entre tantos garotos. A paixão pelo esporte era dividida com o preconceito, que começou dentro da própria casa. Quando pequena a mãe a impedia de praticar a modalidade, que segundo ela era somente para homens. “Minha mãe não gostava que eu jogasse futebol, se eu quisesse jogar tinha que sair escondida de casa, ela não podia saber”, relembra. E o talento que tinha tudo para ser ofuscado pela falta de incentivo, se transformou em motivação para seguir em frente no esporte. Por meio do dom que carregava na ponta das chuteiras ela venceu o preconceito dentro de casa, e ao lado das companheiras de time luta para que o futebol feminino caminhe em igualdade com o masculino, tanto por parte dos investidores, quanto pelo apoio da sociedade.

 

 

Além de jogar futebol de campo, Joyce é uma das destaques do Macro, time de futsal feminino de Araxá, que representou a cidade no último JIMI (Jogos do Interior de Minas).

A equipe é composta por cerca de vinte mulheres com idades entre 13 e 40 anos. Mas as cifras milionárias, a divulgação e a cobertura da mídia vistas nos times masculinos estão longe da realidade do esporte feminino. O time araxaense não recebe nenhum tipo de apoio financeiro, exceto quando participa de campeonatos fora da cidade. Marcos Rosa, treinador da equipe, sonha com uma realidade diferente para as meninas. “Eu trabalho há 20 anos com o futsal feminino, e meu maior desejo é que a sociedade comece a olhar do mesmo jeito que olha para o masculino. Existe muita desigualdade por parte da própria população. Isso precisa mudar”, enfatiza Marcos. E o apito final depois de uma partida representa a volta para uma vida normal. Joyce divide o sonho com as responsabilidades da vida, trabalha, estuda e mesmo assim ainda encontra força de vontade para se dedicar aos treinamentos. No futsal, ela coleciona títulos coletivos e individuais, como revelação do campeonato, artilheira e melhor jogadora da competição. “Eu jogo futebol por amor, o esporte representa tudo na minha vida. Hoje, minha mãe, minha família e meus amigos se orgulham de mim, e isso é já uma grande vitória. Espero um dia vestir a camisa do Brasil e conseguir dar orgulho para o meu país.” A equipe de futebol amador Trianon Esporte

Clube em Araxá está mostrando para a comunidade que o futebol pode e deve ser democrático. Por meio do Projeto Futebol é Inclusão e Cidadania, o clube abriu as portas para que as meninas da cidade ganhem uma oportunidade dentro do esporte. Segundo o presidente do clube, Leonardo dos Reis, o número de meninas interessadas no projeto foi grande.

“Me surpreendeu, porque eu não sabia que aqui em Araxá tinha tanta moça que gostava de praticar futebol; então está sendo muito gratificante trabalhar com essas meninas e espero que este trabalho se torne maior.” O projeto já chegou a reunir cerca de 70 araxaenses com idade entre 11 e 23 anos, que buscam no futebol uma carreira de sucesso. Com o crescimento da modalidade esportiva na cidade, a Prefeitura Municipal, por intermédio da Secretaria de Esportes, irá promover o primeiro Campeonato Feminino de Futebol de Campo de Araxá. Segundo o assessor de Esportes Amador e Rural, José Antunes Soares Júnior, é de extrema importância oferecer oportunidades para as mulheres na modalidade. “A cidade tem um bom time de futsal feminino, mas existia uma carência quando o assunto era futebol. Nós, da Secretaria Municipal de Esportes, resolvemos fazer a competição e foi bem aceita. Tenho certeza que será um sucesso.” O campeonato teve início no mês de março, e até o fechamento desta reportagem cinco equipes estavam inscritas na competição. A partir de 2019, os clubes de futebol do Brasil que não tiverem um time feminino disputando competições nacionais estarão proibidos de disputar as competições sul-americanas. Dos vinte clubes que disputaram a Série A em 2017, apenas sete têm times femininos. Com a nova exigência da Conmebol, esse número tende a aumentar e traz uma esperança para as mulheres em relação ao futuro esporte no país, pois agora amparadas pela lei, as mulheres terão um apoio maior dos clubes e da sociedade.

E enquanto o futuro do esporte não chega, o presente continua incerto e traz vestígios de um passado repleto de preconceitos e desconfiança.

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Debora Duarte

Debora Duarte

Estudante de Jornalismo no curso de Comunicação Social da Universidade de Uberaba (UNIUBE).