Triângulo Esporte entrevista – Ernani de Souza
24 de abril de 2018
Triângulo Esporte (25 artigos)
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Triângulo Esporte entrevista – Ernani de Souza

Nossa atleta Nad Leite entrevista Ernani de Souza, um dos atletas convocados para representar o país na Seleção Brasileira de Trail Run.

Seu começo no esporte foi, digamos, bem lúdico. Seu pai era pedreiro e usava a bicicleta como meio de transporte. Assim, desde muito cedo conviveu com a bike, que naquele momento ainda era só uma brincadeira. A partir da adolescência começou a fazer travessias de bike entre as cidades da região, e meio sem perceber logo iniciou também nas corridas de rua da cidade. Dessa forma as duas modalidades, que eram apenas recreação no passado, acabaram virando seu estilo de vida. Tanto no atletismo quanto no ciclismo começou a competir ainda na década de 90. Em suas primeiras provas em nível regional e estadual já obteve bons resultados. Então logo começou a estudar o que precisaria fazer para evoluir no esporte e continuar melhorando sua performance, mesmo sem muito tempo para treinar, pois trabalhava já aos 13 anos. Começou a dedicar-se o suficiente para estar entre os melhores da região e também do Estado em sua categoria, padrão de dedicação que o mantém acima da média até os dias de hoje. Logo as simples pedaladas deram lugar às competições. Ernani tinha ídolos em sua cidade, mas um atleta em especial chamava mais a atenção do garoto. Era Ademar Serrano, conhecido como “Benga”. “Eu sempre achei ele o máximo, é lógico, queria um dia ter o mesmo vigor físico que ele para competir com uma bike.” Já no atletismo também eram muitos os amigos atletas, mas um em especial era o Bruno, ele morava na cidade vizinha. Bruno era de uma geração antes da sua, e ele sempre teve um nível de performance elevado. Assim, ele era outro em quem Ernani se espelhava. Em meio a atletas de alto nível regional, estadual ou nacional, ele buscava inspiração e se preparava para os mais difíceis desafios esportivos. Hoje, Ernani Souza é um dos grandes nomes da corrida de montanha, participando da Seleção Brasileira de Trail Run. A atleta Nad Leite fez um bate-bola com Ernani para a revista Triângulo Esporte. Saiba um pouco mais sobre a vida e a rotina do atleta.

Day one. Quando você considera que foi seu start na corrida, aquele dia que você disse “eu posso realmente ficar bom nisso”?
R. Como já disputei diversas modalidades, elas meio que se misturam em minha trajetória esportiva, corrida de rua, ciclismo e mountain bike, duathlon e agora trail running… Eu, sinceramente, não sei precisar uma data, até porque fui migrando de modalidade em modalidade, e as coisas foram fluindo positivamente. Mas uma data não sai da minha cabeça: 01/01/1997. Nesse dia decidi que seria muito bom naquilo a que me propus fazer; me dediquei de corpo e alma na modalidade principal que estava focando e assim acabei tendo êxito em minhas metas.

Qual a maior dificuldade enfrentada no início? Fale sobre ela.
R. Quando um atleta começa a se destacar, naturalmente ele quer elevar seu nível de performance. Para que isso aconteça é necessário disputar provas com um nível de competitividade superior aos níveis encontrados até então. Desta forma é inevitável deixar de sair de sua região. Viagens para fora do Estado e do país são muito caras, assim o patrocínio acaba sendo a maior dificuldade. Eu não posso reclamar, pois apesar de não ter realizado tudo que eu queria, desde o início sempre tive amigos e também algumas empresas que, de certa forma, me apoiaram para que eu pudesse seguir com meus sonhos. Mas mesmo depois que você conquista um lugar de destaque, os apoios e patrocínios continuam sendo uma batalha difícil de conquistar.


Você teve treinamento especializado no início?
R. Não, não tive orientação; quando comecei no esporte, na década de 90, tive alguns poucos meses de contato com um treinador que por motivos diversos não vingou. Naquela época era bem mais complexo fazer um treino mais técnico sozinho, pois meu acesso à informação era bem limitado. Internet não existia, e para mim o conhecimento vinha por meio de matérias em revistas, alguns livros e troca de informações com amigos. Sempre tive uma atenção para não exagerar demais nas cargas, mas também nunca fui de ficar parado; sempre treinei 7 vezes por semana. Meu método de treinamento só mudou quando comecei um trabalho com meu atual treinador, mas isso aconteceu só agora, em 2016.

Qual tipo de prova é a sua especialidade hoje? Terreno e distância?
R. Hoje, no trail running, minhas provas são aquelas de até 50 km, mas nesta temporada farei minha estreia na distância de 100 km. Vou disputar, em agosto, a UTMB na prova CCC, que compreende uma distância de 101 km. Vamos ver como será minha participação em uma prova em que ficarei quase 20 horas correndo sem parar.

Em que tipo de prova você se encaixa melhor e em qual tem mais dificuldade?
R. Apesar de correr as provas de 40 a 50 km, minha distância favorita fica na casa dos 21 km; para as mais longas sempre que chega próximo dos 35 km, começo a ter muita dificuldade, sei que isso deve ser para quase todo mundo, mas eu sofro bastante; já nas provas de até 21 km me saio bem.

Qual a primeira prova em que você subiu ao pódio e qual a prova que mais lhe marcou?
R. Minha estreia na modalidade já veio com um pódio. Na verdade, foi muito mais que isso, fui campeão geral da Meia Maratona Noturna de Extrema, uma prova bem dura que acontecia na cidade mineira de Extrema, com largada às 18h. Na ocasião, mesmo sendo minha estreia, consegui chegar alguns segundos à frente de atletas que disputavam provas de trail havia mais tempo. Na sequência, venci esta prova por mais dois anos, me tornando assim tricampeão. Fui ainda vice-campeão brasileiro em 2009, mas logo mudei de modalidade e deixei o trail running no “banho-maria”. Talvez, para surpresa de alguns, a prova que mais me marcou foi justamente a prova que venci no meu retorno ao trail running. Venci a KTR Passa Quatro em 2014, uma prova com um start list de peso. A maioria dos melhores corredores de montanha da época estava presente, sem contar a fortíssima equipe Kailash Team Neptunia. Cheguei de mansinho e acabei vencendo, esse dia foi massa… A partir dessa data terminei alguns compromissos que tinha com outras modalidades e iniciei a temporada seguinte focado na montanha.

Desde então nestas três temporadas que já se passaram consquistei resultados muito importantes porém a KTR Passa Quatro até hoje não me sai da memória.

Você acreditava que podia vencê-la? Fale-nos sobre a prova e o exato momento que você teve certeza de que ganharia.
R. Hoje, posso lhe dizer que toda competição em que entro tenho o “desejo” de vencer, mesmo sabendo que isso não será possível; em todas as oportunidades levo meus pensamentos para esta direção, pois se eu aceitar ser apenas mais um no pelotão ou aceitar outra colocação, então ficará sempre mais difícil entregar meus 100%. Mas na disputa em Extrema, meu primeiro pódio, o pensamento era diferente: eu queria simplesmente terminar a prova, pois era minha estreia, e o feedback que eu tinha a respeito das dificuldades do percurso era assustador. Correr à noite, com possibilidade de frio extremo no alto da montanha me deixava com receio. Esta prova, tradicionalmente, fazia um loop pela pracinha central para que o público pudesse ver um pouco dessa disputa inicial. Logo saíamos da cidade em busca das altas montanhas da região; assim que chegamos no início da primeira subida eu ataquei, peguei a ponta e fui me sustentando por ali. Os quilômetros se passaram e nada de uma luz de lanterna iluminar meus calcanhares, então chegamos no ponto de decisão da prova, o chamado “pasto da morte”. Esse trecho era de uma longa ascensão em um pasto quase sem trilha, cada atleta seguia por onde achasse melhor. Em alguns pontos havia marcações, mas nossa referência principal eram os staffs no alto da montanha sinalizando com suas lanternas. Subi todo esse trecho sem olhar para trás, foi um desafio extremo. Em muitos trechos era necessário usar as mãos par escalar, mas ao chegar no cume dessa montanha e olhar para baixo, vi meu perseguidor muito distante. E como dali até a chegada era apenas descida, eu sabia que a probabilidade de uma vitória era enorme, e foi justamente o que aconteceu.

Houve alguma prova em que deu tudo errado? Se sim, a que você atribui isso?
R. Sim, foi justamente no mundial de trail running 2017. Eu me preparei arduamente, as avaliações do meu fisiologista e do meu técnico mostravam possibilidades positivas para uma grande performance, porém com 5 km de prova eu tive bolhas nos pés, que logo viraram feridas severas me impossibilitando de progredir com a energia necessária no percurso de 50 km, que era muito duro tecnicamente. Assim, acabei voltando para casa frustrado, pois era uma oportunidade única de um grande resultado. Passei muitos meses me preparando, e em 5 km eu já estava sem chances reais de correr razoavelmente bem. Avaliando os acontecimentos, acredito que a escolha do tênis não foi adequada, um erro que lamentarei pelo resto da vida.

Com relação à alimentação e suplementação, como você se orienta? Fale de suas restrições e adaptações.
R. Para muitos isso chega a ser um martírio. Eu não sigo dietas e não tenho nenhum tipo de restrição alimentar. Durante o período competitivo me mantenho com até 62 quilos; nos meses de transição ou mesmo nas férias fico 5% acima desse peso. Isso acontece já há dez anos ou mais, então não tenho porque mudar. Na verdade não quero mudar, não sou um atleta profissional, não sou um atleta que vive do esporte; então aqueles sacrifícios extremos ou limitações de comer as coisas que gosto não são para mim. Sei que preciso estar leve, mas não troco o prazer de comer o que gosto por um quilo a menos. Sobre alimentação, posso resumir assim: sei o momento que posso comer uma barra de chocolate ou tomar uma cerveja comendo um churrasco, mas sei também o momento que preciso estar leve para que minha corrida seja mais econômica; então tento equalizar isso, mas sem fazer sacrifícios. Sobre suplementação, uso o mínimo possível BCAA, alguma bebida com eletrólitos durante os treinos de longa duração, proteína isolada bem de vez em quando e só.

Você pretende se dedicar exclusivamente ao trail running? Do início até hoje, o que você acha que mudou em seus treinos? Volume, intensidade e o que você enxerga que ajudou mais?
R. Até 2017 eu pretendia, sim, focar meus esforços exclusivamente no trail running. Porém, gosto de fazer outras coisas, talvez me desafiar em outras modalidades… Sobre meus treinos, eu tinha um volume anual bem alto; hoje o volume diminuiu bem, mas os treinos de velocidade estão muito mais frequentes. Meu treinador, Sidney Togumi, não alivia. Quando olho para os 20 anos que se passaram vejo que antes eu só “rodava”; hoje faço treinos muito mais técnicos e específicos.

Falando em sonho, qual seria sua prova dos sonhos?
R. No trail run, com certeza, seria a participação na UTMB; lá são 170 km no entorno do Mont Blanc.

Qual seu melhor horário e como concilia seus treinos com a rotina de trabalho?
R. De acordo com a época do ano, quando as condições climáticas podem influenciar bastante, escolho entre o períodos da manhã, que seria das 5 às 7 horas; da tarde, das 12 às 13 horas; ou à noite, após as 19 horas. Me dou bem em todos os horários, afinal sigo nessa rotina há mais de vinte anos. De qualquer forma os treinos no final do expediente são mais desgastantes, nos finais de semana a preferência fica por fazer os treinos o mais cedo possível para depois passar o resto do dia com a família.

Para mim o esporte já deixou de ser um hobby, é estilo de vida; meu desejo é ser competitivo por muito mais tempo, para que eu possa envelhecer com o corpo em movimento constante.

Para quem quer iniciar neste esporte, quais suas recomendações?
R. As recomendações mais importantes são: procurar orientação profissional, sendo um médico para avaliação e liberação para atividades físicas; um professor de educação física para os devidos treinamentos e, por fim, que cada um respeite seus limites. Dê um passo de cada vez e vá progredindo no esporte e nas escolhas das distâncias no devido tempo, não pule as fases.

Gostaria de agradecer a Triângulo Esporte – fico honrado pela oportunidade –, e a meus patrocinadores Clube Recreativo Dom Pedro II, Kailash e Cia da Saúde Lafaiete, por acreditarem e investirem em meus projetos. E por fim um abraço especial para minha família, amigos e todos que torcem por mim nas redes sociais.

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